O presidente da Bolívia, Luis Alberto Arce, e o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, saíram em defesa do presidente Lula frente à crise desatada com Israel por sua comparação da guerra em Gaza ao Holocausto.

Os chefes de Estado manifestaram “solidariedade” à classificação de Lula como persona non grata pelo Estado judeu. As manifestações das lideranças da América Latina unem-se, poucas horas depois, à declaração do presidente colombiano, Gustavo Petro, o primeiro líder internacional a quebrar o silêncio global sobre a tensão entre os países.

Em uma publicação no X (antigo Twitter), feita na segunda-feira, Arce expressou “solidariedade” e “apoio” a Lula, que foi declarado pessoa non grata pelo Estado judeu na segunda-feira, afirmando que a classificação ocorreu porque Lula disse “a verdade sobre o genocídio que é cometido contra o corajoso povo palestino”.

“A história não perdoará aqueles que são indiferentes a esta barbárie”, concluiu o líder colombiano.

Longe do poder e algoz de Arce, o ex-presidente boliviano Evo Morales já havia expressado seu apoio a Lula nas redes sociais. “A nossa solidariedade ao irmão Lula, injustamente declarado persona non grata, por defender a vida e a dignidade do povo palestino face ao genocídio em Gaza levado a cabo pelo Estado de Israel.

Ser declarado persona non grata por um governo genocida que comete massacres contra crianças é um privilégio que reafirma o compromisso com a vida e a paz perante a comunidade internacional e os povos do mundo” disse Evo no X. Em novembro, La Paz rompeu as relações com Israel.

Díaz-Canel também prestou solidariedade ao presidente do Brasil em uma publicação no X. “Toda a nossa solidariedade vai para o querido irmão @LulaOficial, presidente do Brasil, declarado persona non grata em Israel pela sua sincera denúncia do extermínio da população palestina em #Gaza”, escreveu o líder cubano, acrescentando: “Aplaudimos e admiramos sua bravura. Você sempre estará do lado certo da história.”

As declarações dos presidentes da Bolívia e de Cuba somam-se à declaração de Petro, também no X. O colombiano escreveu: “Expresso minha total solidariedade ao presidente Lula do Brasil. Em Gaza há um genocídio e milhares de crianças, mulheres e idosos civis são covardemente assassinados. Lula só falou a verdade e defende-se a verdade ou a barbárie nos aniquilará”, escreveu no X, acrescentando: “Toda a região deve unir-se para acabar imediatamente com a violência na Palestina. A decisão do Tribunal Internacional de Justiça sobre Israel deve gerar aplicação e consequências nas relações diplomáticas de todos os países do mundo.”

A declaração de apoio era de certa forma esperada por parte de Petro. No ano passado, logo após o estouro do conflito entre Israel e o grupo terrorista Hamas, o presidente colombiano também usou uma referência ao regime nazista para comentar as ações do governo israelense no território palestino. Diante da crise, Israel chegou a suspender as exportações de material de defesa para a Colômbia, além de exigir um pedido de desculpas.

A atitude de Gustavo Petro, até aquele momento, era isolada no cenário global: desde o domingo, quando Lula fez as declarações, consideradas antissemitas por algumas organizações judaicas brasileiras, apenas Brasília e o próprio governo de Israel tinham se pronunciado. Não havia ocorrido outras declarações oficiais de apoio vindas de outros chefes de Estado, seja para condenar ou apoiar o líder brasileiro.

Para Mauricio Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, havia a expectativa que a Colômbia, que tem relações estremecidas com Israel, e cujo presidente é afeito a declarações no Twitter se pronunciasse. Contudo, ele considera ser “inimaginável que um governo da União Europeia ou EUA apoie Lula”, por serem “governos pró-Israel, e para quem esse tema (Holocausto) é um tabu”.

Também na terça, o porta-voz da Casa Branca, Matthew Miller, disse que o governo dos EUA “discorda” da fala de Lula, mas sem condenar a comparação com o Holocausto e centrando a crítica na acusação de genocídio. O secretário de Estado americano, Antony Blinken, se reunirá com Lula antes da reunião de chanceleres do G20.

“Obviamente nós discordamos desses comentários. Fomos bastantes claros que não acreditamos que um genocídio ocorreu em Gaza. Queremos ver o conflito encerrado quando for possível” disse Miller.

 

Fonte: Agência O Globo
Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação