A libertação de 11 estupradores e assassinos condenados à prisão perpétua suscita uma forte indignação na Índia. O governo do país decidiu agraciar alguns prisioneiros por ocasião do aniversário de 75 anos da independência indiana, comemorado na segunda-feira (15).

O vídeo do momento em que o grupo é libertado viralizou nas redes sociais indianas. Alinhados do lado de fora da prisão de Panchmahals, no estado de Gujarat, no oeste, eles recebem um doce antes de poderem deixar o local. O integrante mais velho da gangue tem os pés tocados por um homem, um sinal de respeito no país.

Horas depois, as manifestações se multiplicaram na internet. “Há 20 anos, Bilkis Bano estava grávida de cinco meses quando foi estuprada por seus vizinhos, sua filha de três anos foi tomada dela e morta, como sete outros membros de sua família. Hoje, 1,3 bilhão de pessoas assistem aos estupradores serem libertados. Aos 75 anos, a Índia é a república da injustiça”, afirma um internauta no Twitter.

A indignação dos indianos está à altura das promessas feitas pelo governo. Em discurso na TV na segunda-feira, o primeiro-ministro Narendra Modi fez um apelo ao “fim das humilhações das mulheres” e prometeu lutar contra as agressões sexuais. Horas depois, os onze homens condenados à prisão perpétua pelo estupro coletivo da muçulmana Bilkis Bano e pelo assassinato de 14 membros de sua família deixaram a detenção.

Bilkis Bano, na época com 19 anos e grávida de cinco meses, sobreviveu às agressões, mas perdeu seu bebê, além da filha de três anos, sequestrada e morta pela gangue. O caso ocorreu em 2002, durante uma revolta hindu no Estado de Gujarat, que deixou mais de mil mortos, a maioria deles muçulmanos. Na época, Modi era um dos ministros do local, governado até hoje por representantes de seu partido ultranacionalista Bharatiya Janata.

 

Revisão da decisão

Opositores do premiê indiano exigem que o Estado do Gujarat revise sua decisão e volte a deter os membros da gangue. “Essa é a nova Índia: assassinos e estupradores são libertados e ativistas são presos”, tuitou o Partido Comunista do país.

O governo do Estado afirma que a libertação do grupo não tem relação com as promessas do governo nacional de proteger as mulheres. A prisão de Panchmahals indicou também que os membros da gangue puderam ser libertados após quase 15 anos que passaram detidos e seu “bom comportamento”.

Nos últimos anos, a Justiça do país condenou dezenas de pessoas envolvidas na revolta, considerada uma das piores motivada por religião na Índia. No entanto, recentemente, vários acusados vêm sendo libertados, apesar dos protestos da população e de partidos da oposição.

Bilkis Bano se tornou um símbolo da luta das indianas contra as violências e agressões sexuais, banalizadas no país. “Ela não consegue acreditar que seus agressores foram libertados. Ela chorou muito e passou horas atônita”, afirmou seu marido Yakub Rasool, às mídias locais. “Estamos chocados e aterrorizados”, ressaltou.

 

Fonte: UOL Internacional
Foto: efired/Getty Images