Uma das principais promessas do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) para o Nordeste, a escavação para levar água potável aos municípios carentes da substância na região não foi cumprida, e o que restou foi um “cemitério de poços abandonados” pelos estados nordestinos. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

De acordo com a publicação, as obras até foram iniciadas, mas pararam pela metade, ou seja, não foram concluídas. Em alguns casos, os poços prometidos por Bolsonaro e anunciados como uma “força-tarefa das águas” estão lacrados.

Relatos de moradores ao jornal apontam que há lugares nos quais os poços não têm bombas para retirar o líquido, enquanto outros municípios possuem o equipamento, mas sem potência suficiente para a retirada da água até as casas dos moradores. Também há casos em que quando a água chega, ela é salobra. Os principais afetados são aqueles que residem na zona rural.

Em Oieiras, na zona rural do Piauí, estado do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), o Donacs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) iniciou a escavação de um poço de 212 metros de profundidade em 2020, mas o mesmo foi lacrado ainda naquele ano, o que desapontou as famílias da comunidade.

No povoado vizinho, Mata Fria, a situação se repete: um poço que começou a ser perfurado em 2020, hoje encontra-se lacrado. A moradora Valmira Fernandes de Araújo, de 37 anos, lamentou a situação.

“Eles abriram, mas não encanaram a água para nós. A gente fica triste, porque tem água doce perto, mas não pode usar”, declarou a moradora ao jornal. Para obter água potável, ela precisa precisa andar até um quilômetro.

 

‘Licitações genéricas’

Conforme o Estadão, a “força-tarefa das águas” envolveu três órgãos controlados por pessoas próximas a Ciro Nogueira e outros aliados de Jair Bolsonaro: além do Dnocs, foram beneficiadas a Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) — esta última conhecida como estatal do Centrão por ter sido entregue pelo governo a esse grupo político, foi alvo de uma operação da PF (Polícia Federal) no mês passado, por suspeita de desvios de verbas em licitações.

As licitações para os contratos “são genéricas”, segundo o jornal. Parte dos editais sequer informam a localidade onde o poço deve ser perfurado. No total, os pregões para a abertura dos poços soma um total de R$ 1,2 bilhão.

A Agromáquinas Empreendimentos Agrícolas, com sede na Bahia, venceu as licitações mais valiosas da Codevasf, como, por exemplo, uma licitação no valor de R$ 53 milhões, cujo pregão se encerrou em dez minutos. A obra vencida pela Agromáquinas é para Alagoas, estado de origem do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), um dos principais aliados de Bolsonaro.

Em comunicado ao Estadão, a Codevasf afirmou que seus pregões são abertos à livre concorrência e à participação de empresas de todo o país, e que “os locais beneficiados são apontados na definição do objeto, no Termo de Referência”.

“A localização exata de poços ocorre após visita técnica de responsável qualificado da empresa contratada, com ratificação de equipe técnica da Codevasf”, acrescentou.

 

Bolsonaro exaltou poços em lançamento de campanha

Quando oficializou sua candidatura à reeleição no mês passado, Jair Bolsonaro exaltou a construção dos poços para os nordestinos, e afirmou que “água em grande parte do Nordeste é uma realidade” em sua gestão.

“Também o nosso Exército, com a Codevasf, fura dezenas de poços todos os meses, levando dignidade a essas pessoas. Eu estou mostrando o que nós fizemos, o que pretendemos seguir fazendo”, afirmou.

Segundo o ministro da Casa Civil Ciro Nogueira declarou, as obras seriam uma “marca” da gestão Bolsonaro no Nordeste.

Em busca da recondução ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro enfrenta forte resistência dos eleitores nordestinos. Na região, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem a preferência de 59% dos eleitores, ante 22% do atual chefe do Executivo, segundo levantamento da Quaest Consultoria. O Nordeste concentra 27% de todo o eleitorado brasileiro. Procurados pelo Estadão, Jair Bolsonaro e Ciro Nogueira não se manifestaram.

O UOL contatou o Planalto e a Casa Civil, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.

 

Fonte: UOL Política
Foto: Fernando Vivas – 21.out.2016/Folhapress