No jardim da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, tem uma estátua do pastor John Harvard. A lenda diz ter sido o fundador da instituição; na verdade não foi, mas somente um dos maiores doadores de recursos para a universidade. E uma placa informa que aquela não é a imagem verdadeira do benfeitor norte-americano.

A referência tem sentido aqui quando, neste dia seis de janeiro, comemoramos a fundação de Vigia. Não temos nenhuma placa, monumento ou estátua do fundador de Vigia, e a data do aniversário foi criada pelo então prefeito José Ildone Favacho Soeiro. E isso é verdade, embora esbarre na ficção, não havendo registro do feito há 406 anos. Dedicado à pesquisa da história local, o ex-prefeito incomodava-se com o fato de o município não ter uma data oficial para celebrar sua fundação. Então, ele criou a imaginada data – uma espécie de “estátua do fundador de Harvard”. Vale a absurda analogia. Bem que poderia ser a imagem, também fictícia, de Francisco Caldeira Castelo Branco, que fundou Belém a 12 de janeiro de 1616.

Conta a crônica que, seis dias antes de instalar um forte na foz do Rio Guamá, a caravana inaugural da capital passara por uma aldeia de índios tupinambá. Tem lógica, considerando-se tempo, distância e marés entre Vigia e o Forte do Presépio.

Uma das mais antigas narrativas sobre isso é de Domingos Antônio Raiol, o mais respeitado historiador paraense de todos os tempos. Sendo vigiense, o Barão de Guajará honra a Vigia (na biblioteca da Sociedade Cinco de Agosto ainda se encontram alguns dos cinco volumes do afamadíssimo “Motins Políticos” / 1865 – 1890), assim como John honra Harvard. A obra seminal da história do Pará e seus conflitos políticos do século XIX, tem um capítulo de acontecimentos sobre a terra do Barão, notadamente a Cabanagem.
A História é uma ciência dinâmica, sujeita a correções, revisões, ajustes na medida em que surgem novas fontes e versões. Mas as revisões não podem ser capricho para anular o passado, ou desconsiderar as contribuições de toda ordem, mesmo que uma estátua a imagem e a memória de personagens e episódios sejam ficção embalada por fatos carentes de suporte científico.

A lógica, a geografia, os fatos militares e mercantis do século XVII, que provocaram os portugueses saírem de São Luis do Maranhão e ocupar a Amazônia Ocidental – mais tarde a área oriental – apontam que naqueles dias de janeiro de 406 anos atrás, a caravana de militares que fundou Belém passou por este lugar onde Vigia se acomoda.

A missão de Castelo Branco foi pobre em registros para a posteridade. Mesmo que ainda não se tenha encontrado documentos da passagem da caravana portuguesa pelo furo que conecta a Baía do Marajó à do Sol, separando a Ilha de Colares do continente, é justo que a Vigia tenha, mesmo por imaginação, e por legítima certeza, uma data para festejar como sua. E é por isso que se comemora o dia seis de janeiro como a data de fundação do lugar, cuja história é bastante pertinente aos acontecimentos de mais de quatro séculos passados, no contexto de domínio da colônia portuguesa na América.

Vigia faz parte da história amazônica com destaque político, social e cultural. Tudo que edifica e identifica nossa identidade. Mesmo que a estátua de Castelo Branco, ou de Pedro Teixeira possa ser uma miríade em frente o Guajará Mirim – que os índios tupinambás chamavam de Taubapará.

Se os norte-americanos têm orgulho da memória do cidadão que ajudou a construir um dos maiores centros de ciência do mundo, os vigienses precisam se sentir honrados cada vez mais com a história do lugar onde nasceram. Mesmo revisadas as narrativas que embalam o apreço, o pertencimento e o bem-querer por este lugar (e seus personagens) que não tem uma lenda, mas uma história apreciável a ser preservada.

Então, festejemos os 406 anos de fundação da Vigia com orgulho, emoção e comprometimento.

(Nélio Palheta é jornalista, escritor e secretário de Cultura de Vigia).

 

Fonte: Prefeitura de Vigia
Foto: Will Lee Santos