Os dados censitários mais antigos do Pará, provavelmente, são de 1749. A informação está no famoso livro de Antônio Ladislau Monteiro Baena, “Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará”. Nos séculos XVIII e XIX, os levantamentos populacionais foram feitos em 1788, 1801, 1821e 1830.

O estudo de Baena foi publicado em 1833, quando a Província era governada por Bernardo de Souza Franco. O autor poderia ser chamado de “IBGE dos Oitocentos”, tão rica de dados é a obra, uma “fotografia sem retoques do Pará e seus paraenses, nos anos 30, do século XIX – disse Paulo Chaves Fernandes, então Secretário de Estado da Cultura, em 2004, na reedição da obra pelo Senado Federal.

A população paraense era “mesclada de homens brancos, de pretos, de indianos, de pardos. De mamelucos, de curibocas, e de cafuzos. Esta heterogeneidade provém dos brancos haverem aliado o seu sangue com o dos cafres e dos indianos, e da mesma sorte os indianos com os cafres (africanos)…”

“Tudo que fica supra-expressado é cerca da população da Província pode fornecer ao leitor os princípios necessários para formar uma ideia sucinta do qual tem sido o seu andamento…”;

Nas três primeiras décadas do século em que o Pará viveu a Cabanagem, a população das vilas e dos lugares estava estagnada em termos de crescimento – é isso que informa Baena. “Exceto as Vilas da Vigia, de Bragança, de Santarém, de Cametá, e de Óbidos”. Nas demais vilas da Província, “não há tido progresso proporcionado ao da Capital: elas em vez de formarem os três quartos de toda a população acham-se em tal desânimo que indicam caminhar para a mesma desaparição das povoações, que se extinguiram de 1788 para cá (década de 1830). As localidades “extintas” foram: Alcobaça e São Bernardo da Pederneira, no rio Tocantins; o Lugar de Redondo, no Termo da Vila de Bragança; o de Tentugal, nas vertentes do Caité; o de Cantanhede, entre o Guamá e o Caité; o de Serzedelo do Gurupi; o de Porto Grande, acima da Vila de Ourém; o de Pencoval, abaixo da Cidade (Belém), na grande enseada que leva às abas da mesma cidade; os de Porto Salvo e Penhalonga, no Termo da Vila de Vigia.

Mas nem tudo estava perdido. Baena levantou dados sobre Educação e registrou que em algum momento do período pesquisado havia uma escola de “língua latina” na Vigia, assim também em Cametá e outra na Vila de Santarém.  “Todas três com professores”.

Mergulhando na história da Vigia e da vizinhança, é interessante observar o que o militar registrou sobre o atual município de São Caetano de Odivelas, então território vigiense, onde atuaram os jesuítas: “… lugar criado em 1757 e assentado sobre terra pouco eminente da margem esquerda do assaz vistoso rio Tabatinga, que tem sua boca sete léguas ao norte da Vila da Vigia. O seu principal nome foi o de São Caetano, que lhe atribuíram os regulares denominados Companheiros de Jesus (jesuítas) quando ali estabeleceram uma fazenda; este antigo nome ainda preserva na enunciação vulgar”.

Até hoje, é claro!  Segundo os dados de Baena, São Caetano tinha 335 moradores. “Eles viviam da pesca em razão da abundância do peixe; e aqui com especialidade porque é o melhor, sobretudo o camurim. Também trabalham em algumas plantações, eles têm cafezais, cacauais, arrozais e outros plantios, tudo em pequeno ponto, detrás do bosque alto, fresco, e viçoso, que cinge as margens deste e dos vizinhos rios, e que por isso os constituem deliciosos”.

E Vigia “foi criada em 1693, e assentada em muito bom sítio sobre terreno plano e rasteiro na margem direita do rio Tabapará (hoje Guajará Mirim), e distante da cidade (Belém) 15 léguas” – diz o autor da corografia.

“Esta vila, que os indianos chamam Uruytá, tem seis ruas pequenas, e uma delas, que conduz à Matriz, calçada há pouco tempo. Baena anotou que Vigia tinha 5.130 habitantes – “2.120 são brancos, 329 escravos e 2.681 mestiços”.

Como se fosse uma contradição à informação inicial sobre população, Baena informou mais: “… pouco crescimento tem tido esta povoação, por que ainda se protesta, como nos tempos remotos, a falta de meios. E que não podem consertar as casas, que se arruínam; e outros nem acabam as que principiam”.

Enquanto a população crescia, a vila experimentara uma crise entre o fim do século XVII e o início do XVIII?

A despeito de Baena não ser muito claro quanto à real situação econômica da Vigia, vamos encontrar, na metade do século XIX, acontecimento importante para a historiografia: em 1854, o governador Sebastião do Rego Barros (governou o Pará entre 15/10/1853 a 14/05/1855) decretou a elevação da Vila da Vigia à categoria de Cidade. O decerto é de dois de outubro daquele ano.

Antônio Baena morreu quatro antes da ascensão da Vila, que àquela altura já teria alcançado novo patamar de desenvolvimento, após a crise que enfrentou na Cabanagem, em 1835?  Questão para os pesquisadores.

  • Por Nélio Palheta, jornalista e atual secretário de Cultura de Vigia

 

Pode ser uma imagem de céu e texto que diz "Isto é História Vigia de Nazaré Há 167 anos, o Governador da Província do Grão Pará decretou a elevação da Vila de Vigia de Nazaré à categoria de Cidade. SECRETARIA DE CULTURA E TURISMO PREFEITURA DE VIGIA"

 

Fonte: Prefeitura de Vigia
Foto: Reprodução